A Madrugada a deliciava. Era silenciosa o suficiente para se fazer ouvir o som do coração da cidade. A Madrugada seria o único ítem de sua lista. Ela se esforçou para preenchê-la, mas a cor cinza lembra peixe e cheiro de asfalto e fotografias não tinham sons, então restou apenas sua Amante. E era por respeito à Ela que agora estava no parapeito deste prédio. Não queria raciocinar demais, raciocínio é a corda que amordaça a humanidade. Ela sabia que existiam asas e gostaria que lhe permitissem voar - e não existe melhor metáfora para sua libertação do que o pós-parapeito do prédio.
Expirou, inspirou - incorporou-se à brisa. O nada começava a lhe preencher. Cerrou os punhos de modo que suas unhas fincassem na palma das mãos - mas ela era o vento da Madrugada, nunca havia se relacionado tão a fundo com sua doce Amante, eram como uma coisa só - ela era a brisa na face dos boêmios e dos desgraçados, dos bandidos e dos tresloucados. Mal sentia a carne, estava pronta para o não-ser.
Um choque a puxou de volta para a carne pútrida e a insensibilidade que é o ser. Um choque, que virou calor, e então se revelou um toque.
-Senhorita, você está bem? - uma voz masculina, um tanto sem fôlego e já calejada questionou, preocupada. Ela se virou, furiosa a fitar o rosto de seu assassino. Ela diria que era uma aparência-padrão-de-homem-de-negócios, desinteressante, ordinário, mas os viu a contemplando. Tinham um brilho próprio e a olhavam com uma sincera preocupação, e ela sentiu o amor pela primeira vez em seus vinte e oito anos de existência. Não era o manipulador amor romântico, não era o egoísta amor próprio, não era o instintivo amor materno. Era apenas amor, em seu estado bruto.
Esqueceu o que havia se passado até ali, a força que a acometia era tão densa que jogava todo seu raciocínio para longe. Nadou até eles por uns bons segundos, pois percebeu que foi feita uma pergunta pela voz coadjuvante daquela constelação.
-Está calor.
E então ele deu o Olhar. A imagem está gravada nitidamente em sua cabeça, mas palavras são tão supérfluas, tão generalizadas, uma vez ela tentou colocar no papel aquela imagem: "era uma tamanha censura mesclada com inveja e verdadeira compaixão e talvez um pouco de raiva. Sem citar o onipresente amor. " mas não era suficiente. Este Mundo não é suficiente para entender a existência daquele olhar. Tamanha energia e eletricidade a fizeram descer do parapeito. Não entendeu o que as estrelas expressavam, mas sabia o que elas estavam esperando. Mas, o que faria? Falaria sobre as mordaças? Sobre o vento? Sobre a metáfora que ele acabara de impedir? Por deus, o que diria?
-A brisa da madrugada é sem igual, não? - sua voz soou desafinada e sem compasso, era apenas ela tentando recobrar as forças.
-Concordo. Tento sempre vir aqui todos os dias para senti-la, é revigorante. - e por um milésimo de segundo Aquilo desapareceu. Se satisfez com sua resposta, mas não estavam adormecidos, ainda a fitavam, agora com uma empatia animadora.
Ela era humana demais para tudo aquilo. Virou o rosto e se dirigiu à escada.
-Tomei minha dose por hoje. Vou indo. Até. - falava pausadamente, estava ofegante.
-Se cuida. - ela ainda podia sentir o cintilar das estrelas. Aquilo deve ter sido uma intervenção divina ou algo assim. Não poderia processar toda aquela informação consciente como estava, precisava dormir. Desceu as escadas com uma pressa assustadora. Esperou o elevador em pânico, apertou o três. O pânico começou a cessar - e então teve uma epifania.
Chegou em casa, prendeu os longos cabelos escuros em um coque, jogou água fria em seu rosto, comeu um pedaço de maçã, substituiu o sapato por meias coloridas e adicionou um novo ítem à sua lista: Estrelas.